Um roteiro que se consagrou no desenvolvimento do afroturismo no Pantanal de Corumbá, o Circuito Kaô de Xangô, que conecta os visitantes, os moradores e os devotos às manifestações que celebram o sincretismo do Banho de São João e ao patrimônio vivo da cidade, é um dos 34 projetos finalistas da edição de 2026 do Prêmio Braztoa de Sustentabilidade.

Reconhecido pela Organização Mundial do Turismo, o prêmio nacional foi criado em 2012 pela Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa) com o propósito de Identificar, reconhecer e valorizar iniciativas que unem turismo, inovação e responsabilidade socioambiental. As iniciativas finalistas estão distribuídas por 13 estados e contemplam as cinco macrorregiões do país.

O Circuito Kaô de Xangô é uma das atividades da Bela Oyá Pantanal – a primeira agência receptiva de afroturismo de Mato Grosso do Sul -, que proporciona uma experiência inesquecível na vivência da celebração da tradicional manifestação religiosa (reconhecida e registrada como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, em 2021), que ocorre entre os dias 22 e 23 de junho.

Pantanal Negro

Além de participar do cortejo que leva a imagem de São João para o batismo no Rio Paraguai, no encontro dos andores na descida da Ladeira Cunha e Cruz, entre ladainhas e ritmos que lembram o frevo ao som da banda de sopro, o turista conhece a casa dos festeiros e a gastronomia de terreiro. O festejo registrado desde o final do século XIX une fé, ancestralidade e cultura afro-brasileira.

“Estar entre os 34 finalistas é uma conquista muito especial para nós”, comemorou a empreendedora, idealizadora e CEO da agência Thayná Cambará, que criou roteiros para explorar um turismo diferenciado no Estado: a Corumbá Negra. Com mais de 73% de sua população afrodescendente, segundo censo do IBGE, a Capital do Pantanal tem cerca de 400 terreiros de umbanda e candomblé e quilombos.

“Chegar a essa etapa mostra que um trabalho que nasce em Corumbá, da nossa ancestralidade, dos povos de terreiro e da valorização do Pantanal Negro pode ocupar espaços importantes do turismo nacional. Mais do que um reconhecimento, eu vejo essa conquista como uma honra a quem veio antes de nós e manteve esses saberes, essas tradições e esse patrimônio vivos”, diz Thayná.

Ponto de virada

O afroturismo no Pantanal está transformando histórias em oportunidades e modelo de negócios, expandindo serviços e gerando pertencimento, inovação e valorização do território e do patrimônio (pouco reconhecido), segundo a empreendedora corumbaense. “É o ponto de virada”, aponta, acrescentando que a cultura pode ser uma estratégia de desenvolvimento econômico.

Chegar à final do Prêmio Braztoa, para Thayná, reforça a construção de algo consistente. “Nosso propósito não é apenas levar visitantes para conhecer uma experiência. É fazer com que o turismo reconheça quem construiu essa história, gere oportunidades para quem mantém essa cultura viva e ajude a colocar Corumbá e o Pantanal Negro em novas narrativas do turismo brasileiro”, sustenta.

Para o diretor-presidente da Fundação de Turismo do Pantanal, Zelinho Carvalho, a operadora, com o circuito Kaô Corumbá de Xangô, transforma memória e tradição em experiência turística, aproximando o visitante das raízes afro-brasileiras, dos saberes das comunidades e da identidade cultural, que também constrói a história do Pantanal. “Valorizamos sempre um turismo mais diverso, inclusivo, sustentável e conectado à nossa identidade”, disse.

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